Divertir-se é muito bom. Quem não gosta?
A diversão revigora as nossas forças e quando é realizada em companhia
dos demais nos torna mais generosos e mais sociáveis. Aproximam-se dias
maravilhosos para a diversão, os do carnaval. O ócio também é educativo
quando bem vivido. Já Santo Tomás de Aquino, e antes dele Aristóteles,
falava da virtude que põe o justo meio entre a relaxação no lúdico e a
seriedade excessiva, trata-se da virtude da eutrapelia. A “pessoa
eutrapélica” é a pessoa bem orientada nas diversões, com boa agilidade e
que conserva a elegância do espírito também nos momentos lúdicos. Os
santos são exemplos de pessoas eutrapélicas. S. Felipe Neri e S. João
Bosco são conhecidos, entre outras coisas, pelo bom humor; S. Josemaría
Escrivá costumava dizer que em 1928, quando fundou o Opus Dei, tinha
“somente vinte e seis anos, graça de Deus e bom humor”; de S. Tomás Moro
parece que se populariza cada vez mais a sua oração para pedir o bom
humor; também o futuro beato, João Paulo II, é muito conhecido pela sua
alegria, bom humor e jovialidade. A santidade sempre é alegre e
divertida, tem rosto amável e por isso atrai.
A eutrapelia é uma virtude que se
enquadra dentro da virtude da modéstia, que por sua vez é parte da
virtude da temperança. Diz Santo Tomás que a virtude, essa força habitual
para realizar um bem determinado, tem a ver com duas realidades: em
primeiro lugar diz relação aos vícios contrários que exclui e as
concupiscências que refreia; em segundo lugar, diz relação ao fim que
pretende alcançar. E, no que diz respeito aos vícios e as
concupiscências, a virtude – continua S. Tomás – é mais necessária aos
jovens dado que nesse período encontra-se neles a concupiscência
deleitável devido ao fervor da idade, ao fogo da paixão (cfr. S. Th.
II-II, q. 149, a.4c).
A pessoa humana não aguenta trabalhar o
tempo todo e nunca descansar. É necessário que de tempos em tempos
descansemos. Se esticarmos uma corda e a deixarmos tensa durante muito
tempo, não aguentará, se partirá. Não podemos viver numa tensão
permanente; se assim fosse, nos quebraríamos. É muito importante que nos
entreguemos às diversões, aos jogos e às festas, nas quais se busca o
prazer que nos faz descansar. Logicamente, essas diversões, jogos e
festas, deverão ser conforme a reta razão, pois devemos ser virtuosos
aos divertir-nos, com autêntica eutrapelia.
Atuar com excesso nas diversões mostra que o apetite do que se diverte é desordenado, fora da ordem da razão. São Paulo adverte: “nada de obscenidades, de conversas tolas ou levianas,
porque tais coisas não convêm; em vez disto, ações de graças. Porque
sabei-o bem: nenhum dissoluto, ou impuro, ou avarento – verdadeiros
idólatras! – terá herança no reino de Cristo e de Deus” (Ef 5,4-5) .
“Scurrilitas”, em latim, e “eutrapelia”, em grego, são as palavras
originais que em português são traduzidas por “conversas levianas”. Não
obstante, essa eutrapelia da qual fala S. Paulo não é a eutrapelia da
qual falávamos acima, mas das “conversas levianas”, isto é, na linha do
excesso do espírito lúdico. Se não há excesso, se o jocoso é usado para
relaxar um pouco das tensões do cotidiano, se a diversão não é tomada
como um fim em si mesmo e se são diversões que não ofendem a Deus, não
só é lícito entregar-nos aos prazeres das diversões, mas é também muito
aconselhável.
No entanto, brincar o carnaval com
sentido cristão e, por tanto, também humano, não é fácil. É possível se
há organização: em família e com amigos responsáveis. Nesse sentido,
alguns movimentos da Igreja Católica, máxime a Renovação Carismática,
tem o costume de organizar eventos de oração e de encontro durante esses
dias. Trata-se de uma iniciativa assaz louvável. Cada família, cada
grupo ou associação poderia, com criatividade, encontrar maneiras de
divertir-se à beça, fraternalmente e aproveitando o tempo para viver
essa dimensão tão humana e tão cristã, a alegria. Logicamente, não é
necessário que seja um encontro de oração. Poderia ser também. O
importante é aproveitar para que tenhamos momentos alegres com os outros
através de encontros amigáveis, educados e respeitosos dos bons
costumes. Também é importante que haja um bom almoço e – por que não? –
um futebolzinho ou algo semelhante.
Há poucos dias, estive conversando com
um amigo sobre um tema típico de ciência-ficção: o que aconteceria se,
por pouquíssimo tempo, a gravidade dos corpos deixasse de existir em
toda a terra? Parece-me que acabamos por concluir, não de uma maneira
científica, mas intuitivamente, de que seria o caos.
Se os objetos deixassem de atrair-se
teríamos um espetáculo assombroso e não desejável de ver-se: carros, a
120 km/h, que de repente se elevam no ar e, sem direção, vão a qualquer
parte; pontes que poderiam soltar algumas junturas e sair do seu lugar
habitual; pessoas que, em seu passeio vespertino, se veem sem um ponto
de referência; restaurantes com todos os produtos alimentícios nos ares,
as cadeiras com os seus clientes suspendidos a 1m e o caldo das panelas
saindo das mesmas e caindo na cabeça do primeiro que encontrar, ou
melhor, sem gravidade o caldo também poderia “cair para cima”. Seria uma
loucura! O que aconteceria com as águas dos oceanos, com os incêndios
que estão acontecendo agora mesmo, com os icebergs, com os aviões que
estão em plena pista já no ponto de decolagem, com cantores e artistas
em geral em suas apresentações, com … ? Agora, imagine só, tudo isso por
um minuto. Depois desses 60 segundos… tudo voltaria ao normal?
Certamente que não. O carro que estava a 120 km/h, quando a gravidade
voltasse, onde estaria? Não na ponte, provavelmente, mas no rio; os que
estavam para atravessar uma ponte, onde estariam? E os aviões? E?
Não adianta fazer um montão de
barbaridades, pensando que quando chegar a Quaresma tudo vai se arrumar.
Isso é ilusão! “No coração dos homens, Deus tem sido colocado aos pés
de Satanás”, dizia G. K. Chesterton. “Depois me converterei”,
poder-se-ia pensar. No entanto, ninguém poderia garantir a alguém que
pensasse assim que na quarta-feira de cinzas tal fulano ainda estaria
vivo. Deus sempre nos perdoa, nos restaura, mas, sem dúvida, os vícios
contraídos em momentos de farra, deixam a sua gosma nojenta.
“Em toda parte os malvados andam soltos, porque se exalta entre os homens a baixeza” (Sl
11,8). Esse versículo do salmo bem poderia aplicar-se a algumas
manifestações carnavalescas. Já que entre os homens se exalta a baixeza,
e não preciso pensar muito para concluir que é assim mesmo, os malvados
andam soltos e continuam disseminando as suas tresloucadas ideias. Aos
retirar os valores tidos como tais e trocá-los pelos falsos valores,
vê-se o assombroso resultado: crianças que perdem a inocência,
adolescentes e jovens semelhantes a bestas que não conseguem submeter as
paixões à razão e à vontade, famílias que se desintegram. A lei da
gravidade dos costumes está desaparecendo! E o que acontecerá?
Não percamos a gravidade de filhos de
Deus. Vamos divertir-nos, e até dar gargalhadas, mas o faremos sempre
dentro da virtude e do sentido que temos da nossa filiação divina.
Tenhamos sempre em alta estima, em meio às nossas diversões, virtudes
como a sobriedade no uso dos alimentos e das bebidas, amor à santa
pureza e ao pudor, a honra à palavra dada, a generosidade na escuta e no
serviço aos outros. Tudo isso é eutrapelia. Não se trata de ser chatos
nem relaxados, mas de ser santos fazendo com que seja amável e alegre o
caminho da santidade. Na presença de Deus, todos nós teremos um bom
carnaval, divertido e normal, com eutrapelia e amor de Deus. Bom
carnaval, então!
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